Nos anos 1970, o centro de desenvolvimento da Porsche em Weissach começou a trabalhar em um carro que, à primeira vista, destoava da imagem consolidada da marca.

Porsche 924 nasceu como Volkswagen e redefiniu o DNA da marca

Sem o tradicional motor traseiro, com silhueta pouco familiar, linhas retas, frente alongada e um amplo vidro traseiro tipo hatch, o modelo era um 2+2 genuíno, pensado para uso diário. Uma peça publicitária da época o chamaria de "family sports wagon".

Porsche 924

À frente do projeto estava Harm Lagaaij, então designer no início da carreira em Weissach, que mais tarde chegaria à chefia do departamento de design da marca. Segundo ele, o desenho do 924 "se desenvolveu de forma inteiramente intuitiva" e foi, de certa forma, uma surpresa até para a própria equipe.

Porsche 924

O que faz um Porsche ser um Porsche?

O novo modelo levantava uma questão de definição: o que faz um Porsche ser um Porsche? A posição do motor? A forma como o carro se comporta? A clareza do conceito, a coerência dos detalhes, ou simplesmente o desempenho? A pergunta ganhava peso porque o 924 nasceu como um contrato de desenvolvimento (EA 425) para a Volkswagen — um projeto que, segundo Lagaaij, era "um sonho" para os designers da época.

Porsche 924

"Ao apresentar a proposta de design, a pergunta mais interessante era por onde começar", explica Lagaaij, "porque não havia nada de onde partir." Não existia, na história da Volkswagen, nenhum precedente desse tipo de esportivo sobre o qual construir um conceito. "Literalmente tínhamos uma folha em branco à nossa frente", diz o designer. Isso não significava liberdade total: o pacote técnico — motor, radiador, câmbio, eixos e, principalmente, a posição dos bancos — já estava definido, assim como peças de produção e o planejamento de manufatura. As primeiras maquetes de argila do projeto, segundo Lagaaij, tinham um certo "toque italiano".

Porsche 924

O modelo de referência era o 914

O parâmetro para a colaboração entre Volkswagen e Porsche era o 914, dos anos 1960. O conceito seguia uma estratégia tradicional da marca: usar tecnologia de produção em série já testada para ganhar sinergia e confiabilidade sem comprometer a engenharia Porsche. Mas, diferentemente do 914 — concebido desde o início como projeto conjunto —, o 924 seria lançado originalmente como um modelo Volkswagen.

Porsche 914 - visão 3/4 dianteira direita

Apesar de números de vendas sólidos, o mercado teve dificuldade em aceitar o 914, com seu motor central longitudinal, como "um Porsche de verdade". Foram produzidas cerca de 115.600 unidades com motor quatro-cilindros da Volkswagen e aproximadamente 3.300 unidades da versão 914/6, com motor seis-cilindros da Porsche — volume insuficiente do ponto de vista econômico para um fabricante de grande escala como a Volkswagen. Nesse período, a companhia decidiu se afastar do conceito de motor traseiro refrigerado a ar e migrar para plataformas refrigeradas a água, com motor dianteiro.

Porsche 914/6 - detalhe motor

Da Volkswagen para a Porsche

Em 1975, Toni Schmücker assumiu a presidência do conselho executivo da Volkswagen. Sucessor de Rudolf Leiding, ele cancelou o projeto EA 425 — decisão influenciada pela primeira crise do petróleo da década e pela consequente retração do mercado consumidor, além de razões políticas ligadas ao modelo. A Volkswagen já havia desenvolvido, com o Scirocco , um cupê esportivo baseado no Golf.

A Porsche assumiu os custos de desenvolvimento, recomprando o projeto e transformando-o em um modelo próprio da marca. Segundo Lagaaij, o desenho e as proporções já eram suficientemente coerentes para que o trabalho seguisse sem alterações no conceito — uma mudança que, segundo ele, seria inviável em um estágio tão avançado de desenvolvimento.

Porsche 924 - projeto Volkswagen

Lagaaij observa que, nos anos 1970, o DNA de design da Porsche não era tão "claramente codificado" quanto é hoje. Como o 911, com sua linguagem de design tradicional, era praticamente a única referência visível da marca, o 924 não foi visto como um desvio de rota. Para os designers, sob a chefia de Anatole Lapine, e para os engenheiros, o 924 não era uma solução paliativa. "Achávamos que era o futuro", resume Lagaaij. Se o 911 representava o coração da marca, o 924 encarnava a disposição de abrir novos caminhos.

Porsche 914, 911 e 928

O 928 e o conceito transaxle

O período também trazia mudanças externas: novos mercados, novas exigências dos consumidores e novas normas legais de ruído, emissões e segurança veicular. A Porsche precisava se adaptar técnica, econômica e estrategicamente. Quase ao mesmo tempo em que o 924 era desenvolvido, a marca trabalhava no 928, um gran turismo 2+2 maior e mais sofisticado, com motor V8 de alto desempenho. O design ficou a cargo de Anatole Lapine, Wolfgang Möbius e Hans-Georg Kasten; mais tarde, o próprio Lagaaij contribuiria no desenho do 928 GTS.

Porsche  928 GTS - preto - visão 3/4 dianteira esquerda

Segundo Lagaaij, os dois modelos eram "semelhantes em termos de pacote e arquitetura básica", mas "completamente diferentes" na linguagem de design — prova, para ele, de que o design Porsche permitia grande liberdade criativa naquele momento. Frank Jung, chefe do arquivo histórico da Porsche, resume o resultado: o design de ambos os modelos "ainda é inovador e moderno hoje", com uma base de fãs crescente.

Posrche 924 - 3/4 dianteira direita

A solução técnica comum aos dois modelos foi o conceito transaxle — a forma encontrada pela Porsche de introduzir a arquitetura de motor dianteiro. Pela primeira vez na história da marca, o motor deixaria de ficar posicionado atrás dos ocupantes. Em vez de reunir motor e câmbio em um único bloco pesado sobre o eixo dianteiro, os engenheiros optaram por manter o motor na frente e o câmbio no eixo traseiro, ligados por um eixo rígido — configuração pouco usual para a época.

Posrche 928 - cortado

Dois caminhos para a Porsche

Enquanto o 924 era posicionado como um "Porsche de entrada" voltado a famílias e a novos públicos, o 928 era um gran turismo de alto desempenho, com acabamento interno considerado particularmente avançado para a época, e ocupava um segmento de mercado distinto do 911. A direção da Porsche à época, liderada por Ernst Fuhrmann — primeiro executivo da marca vindo de fora da família fundadora —, apostava que o 928 atenderia à crescente demanda global por conforto e segurança, e chegou a considerar o fim do 911.

Porsche 924 - amarelo e vermelho - dois modelos

Os consumidores discordaram. O 911, então em sua segunda geração de produção (série G), manteve popularidade constante entre os entusiastas da marca. Peter W. Schutz, que sucedeu Fuhrmann na presidência entre 1981 e 1987, revogou a decisão de descontinuar o 911 já em sua terceira semana no cargo — decisão que o tempo viria a confirmar como acertada, já que o 911 segue como um dos ícones do automobilismo mundial há mais de seis décadas.

Porsche 911 GTS 992.2 - amarelo

Resultados comerciais

Entre 1976 e 1988, a Porsche produziu mais de 150 mil unidades do 924 em suas diferentes versões — número próximo ao do 911 no mesmo período. Esse volume consolidou as bases da família transaxle, que incluiu, além do 928, os modelos de quatro cilindros 944 e 968.

Porsche 924 - azul - visão 3/4 traseira direita

Apesar da qualidade de engenharia e da linha de design coerente entre os modelos, a Porsche não conseguiu explorar sinergias suficientes entre as diferentes séries. Cada carro foi desenvolvido quase como um projeto independente, com motor, componentes de carroceria e processos de produção próprios, o que elevou os custos — um desafio que acompanhou os modelos transaxle em um período de transição para a marca. A lição resultou, anos depois, na estratégia de plataformas modulares que a Porsche adota atualmente, com arquiteturas compartilhadas entre modelos para reduzir custos de desenvolvimento e acelerar ciclos de produção sem que cada série perca sua identidade.

Porsche 924 - lateral

Um resultado que "envelheceu bem"

"Do ponto de vista de hoje", diz Lagaaij, os modelos transaxle "envelheceram muito bem". Ele cita como pontos fortes o pacote com boa sensação de espaço interno no formato 2+2, o porta-malas generoso, o amplo para-brisa traseiro — um traço único e também um desafio de engenharia na época —, além do nível de dinamismo e da combinação de eficiência com conforto que, segundo ele, ainda se sustentam.

Porsche 924 - vermelho

Frank Jung resume o contexto histórico: o 911 é o núcleo da marca, mas uma marca excessivamente dependente de um único ícone tem cada mudança olhada com desconfiança. Foi por isso, segundo ele, que a Porsche precisou se reinventar naquele momento crítico — mantendo o 911, mas também buscando soluções de engenharia duradouras que, a partir dos anos 2000, abririam caminho para os esportivos de quatro portas e motor dianteiro da marca atualmente. "Hoje você chamaria isso de coragem estratégica. Na época, era um grande risco", afirma Jung.

Porsche 924 - prata

Cinquenta anos após o lançamento, os modelos transaxle vivem um momento de redescoberta, com qualidades de uso diário que podem ter sido subestimadas no passado — e como demonstração de que a identidade Porsche nunca esteve amarrada a uma única posição de motor.





4 Comentários

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  1. logo vemos porque os carros da VW, como o Tera e Nivus, e Golf e todos são tão bons.

    https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjy5eOr_-ztroeAA_rqithactn-hOSp3_MTBwHisXkBFuCguDKAep1vbisOj0DHSE9tNeyPhiW7nSXatgqf6nBc4_pa3FEPiWCx2mvnjpiPZ4ABg030jrYcxFk8L4npTB0vL-syL9_s6Ru62OwEJLo3CTgLF-PqsFtWxJjtr-ftX7meHHOT48ZvIFFlVQjv/s600-rw/VW-TERA-2026.jpg

    Todos tem alma Porsche. O Tera tem alma de Porsche.

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    1. But the Amarok Machus undoubtedly has the highest "Porsche content"...

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    2. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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    3. VW É TAO BOQUETA QTO A FIAT, só cobram mais caro por isso

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